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A Restauração do sistema emocional - Página 2 PDF Imprimir E-mail
José Maria Martins   
Índice
A Restauração do sistema emocional
A trindade da auto-negação
A trindade da auto-aceitação e da emancipação emocional
Ativação e desbloqueio dos mecanismos endógenos
Um mergulho no mundo interior
Eliminação das tensões musculares crônicas
Quatro causas usuais de transtornos
Conclusão
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A trindade da auto-negação

Se conhecermos os mecanismos psicofisiológicos utilizados para bloquear as emoções também poderemos saber como desbloqueá-las. De fato, qualquer pessoa sabe como bloquear uma emoção, isto é, sabe como inibir um processo emocional que está apenas se iniciando. Entretanto, a maioria não tem um conhecimento preciso, funcionalmente útil, sobre como exatamente consegue tal façanha. Diante da pergunta: como você bloqueia uma emoção? – feita centenas de vezes, a pessoas de todos os tipos – a resposta usual é tautológica. Dizem coisas como: impedindo que ela saia, segurando o sentimento, prendendo, contendo, reprimindo, etc. Mas exatamente o que você faz? O que faz para se conter? O que faz para inibir sua raiva, seu medo, sua tristeza ou qualquer outro sentimento? Raramente encontrei alguém que demonstrasse um conhecimento explícito desse processo, isto é, que fosse capaz de descrever os meios utilizados para deixar de viver uma emoção que, por qualquer motivo, não deseje naquele momento. As pessoas sabem fazer, e o fizeram por toda a vida, sem entretanto serem capazes de explicitar exatamente o que fazem e como o fazem.

Depois de ouvir uma descrição do processo, porém, e de testar em si algumas técnicas de liberação, a maioria das pessoas torna-se capaz de eliminar seus padrões inibitórios mecânicos. É sempre surpreendente confirmar a velha constatação de que apenas saber não basta. O efeito é mínimo apenas com a assimilação intelectual da teoria, mas cresce em proporção direta com a experiência de momentos de desbloqueio e de fluxo emocional livre.

Vejamos então, como atuam aqueles mecanismos psicofisiológicos de inibição emocional. Em geral, eles ocorrem de forma mecânica, automática, inconsciente ou semi-consciente. Por serem três, vamos englobá-los sob o título de trindade da autonegação, à qual, posteriormente, vamos contrapor a trindade da auto-aceitação ou da auto-emancipação.

I. O primeiro mecanismo consiste simplesmente na diminuição do aporte de energia que sustenta o processo. A disponibilidade de energia para qualquer processo que ocorra no organismo depende da respiração. De fato, tudo no corpo vivo depende da oxigenação. Confrontado com a necessidade de controlar um processo indesejado, como uma raiva intensa e considerada imprópria, o meio mais direto e mais eficiente é utilizado: diminui-se a respiração para assim se diminuir a intensidade do processo. Trata-se simplesmente de racionar a energia que sustenta o processo. Não pode haver absolutamente emoção auto-afirmativa intensa sem respiração profusa. Visualize uma pessoa em estado de raiva desinibida. Diz-se mesmo, na linguagem corriqueira, que ela está “bufando” de raiva. Ou uma pessoa excitada, ou chorando livremente. Todos esses estados são marcados pela respiração intensa. E a recíproca é verdadeira. A contenção emocional é acompanhada, ou melhor, é realizada através da contenção respiratória. Este é um princípio reconhecido e utilizado de várias maneiras por sistemas terapêuticos antigos e modernos, orientais e ocidentais.

A diminuição da respiração constitui, então, o primeiro elemento de nossa trindade inibitória. Toda contenção emocional direta – isto é, que ocorre depois que o processo foi desencadeado – se dá através de uma diminuição da respiração, isto é, de um racionamento do aporte de energia ao processo que se deseja conter, inibir, controlar ou simplesmente enfraquecer. Não será por acaso que a expressão popular para esta contenção é: sufocar um sentimento.

A maioria das pessoas começou a utilizar essa diminuição da respiração na infância, e o fez tantas vezes que o ato tornou-se automático e inconsciente. Após anos de controle, há uma estabilização da respiração num nível abaixo do normal/adequado. A maioria mostra um padrão respiratório muito inferior ao seu potencial natural. Depois de instituído, o padrão tende a se manter, por um simples mecanismo automático de retroalimentação. Se a pessoa aumentar seu ritmo respiratório, os sentimentos indesejados ameaçam emergir, pois o processo já tinha sido desencadeado (o “gatilho” estava armado). O desprazer emergente provoca uma resposta imediata e mecânica de diminuição do aporte de oxigênio. A pessoa sente-se melhor com a respiração diminuída e, portanto, mantém esse padrão automática e inconscientemente.

Se alguém objetar que, com qualquer exercício físico aumentamos a respiração e nem por isso emoções bloqueadas afloram, a explicação é simples. Nesse caso, o oxigênio será imediatamente utilizado pelos músculos. Já no emprego desse princípio como recurso psicofisiológico para o desbloqueio emocional – emprego cujo resultado também constitui uma confirmação empírica do princípio – faremos exatamente isso: que a pessoa respire como se estivesse realizando um exercício físico intenso, sem que entretanto faça exercício algum. Dadas as condições adequadas, a energia extra disponível será utilizada pelos mecanismos auto-reguladores do organismo. Isto pode ser demonstrado experimentalmente de forma tão contundente que não deixa espaço para dúvida. Mas este é um aspecto da tríade liberadora, que descreveremos posteriormente.

II. O segundo elemento da trindade da autonegação é a tensão muscular crônica. Esse fator é freqüentemente desconsiderado e sua importância desqualificada por muitos profissionais da área, geralmente por preconceitos teóricos, sem uma análise cuidadosa dos fatos. Por outro lado, ele é demasiado óbvio para outros profissionais, principalmente aqueles que utilizam métodos psico-corporais e que atuam no seu trabalho diário sobre as tensões musculares crônicas.

O princípio básico a ser considerado aqui constitui, como já vimos, uma das características centrais dos processos emocionais. Ele pode ser enunciado da seguinte forma: toda emoção inclui um conjunto integrado de movimentos expressivos e toda emoção (exceto as contemplativas) cria uma tendência para a ação. Como qualquer movimento envolve a atuação de músculos, o impedimento do movimento expressivo (ou da ação impulsionada pela emoção) exigirá uma contração muscular, que tanto pode ser uma paralisação do músculo que já começou a se contrair, como uma manutenção em estado de tensão dos músculos antagônicos àqueles responsáveis pelo movimento em questão. Seja a contração dos pequenos músculos faciais, seja dos grandes músculos corporais, sempre que há uma inibição prolongada da expressão emocional ou da ação impulsionada pela emoção, encontraremos necessariamente uma contração muscular crônica.

Como acontece com a respiração diminuída, essas tensões tornam-se permanentes e inconscientes. Lembremo-nos de novo: o cérebro registra apenas diferenças no padrão dos estímulos que chegam a ele. Se um mesmo estímulo é enviado constantemente ao cérebro (como no caso de um músculo tenso), ele não provoca mais reação alguma e permanece fora da consciência. Assim, com o passar do tempo, as pessoas deixam de notar suas tensões.

Não existe inibição emocional sem alguma forma de contração muscular, seja pequena, seja grande. A tensão é tanto mais forte quanto mais o indivíduo iniba os gestos que as estimulações presentes provocariam se as regras morais ou sociais não interviessem. Tenso fica o jovem que não ousa expressar seus sentimentos à garota que o atrai; tensa é a criança que desejaria replicar por palavras ou punhos; tenso é aquele que tem medo e não ousa fugir. São antigos já os experimentos que demonstram as tensões por inibição emocional ( Fraisse & Piaget, 1969, 128-129).

A eliminação das tensões crônicas obviamente deixa o organismo livre para expressar a emoção desencadeada anteriormente e mantida em cheque pela tríade inibitória. Toda emoção é transitória, se for vivenciada de forma completa, mas permanece como um gatilho pronto a disparar enquanto não for vivida completamente. Assim, a excitação resultante é transferida de uma situação para outra. Sem as inibições musculares, os processos emocionais ativados podem facilmente fluir até seu fim natural, determinado pelo próprio organismo, isto é, pelos mecanismos reguladores biológicos.

Ademais, há muitas outras conseqüências negativas advindas da manutenção das tensões musculares crônicas, além daquelas diretamente resultantes da inibição do processo emocional. O grau de liberdade do corpo está diminuído e, portanto, também sua eficiência global, o que se pode observar naquele desajeitamento dos atos corriqueiros e na dificuldade típica das pessoas tensas para dançar, para praticar um esporte, etc. Também podemos incluir aí a tendência a pequenos e grandes acidentes e a dificuldade de comunicação com os outros. Não será esta a origem da alcunha “pé-frio” utilizada em algumas regiões do Brasil para designar as pessoas muito perseguidas pelo azar e sujeitas a acidentes freqüentes? Músculos contraídos comprimem artérias e veias. Quanto mais tensos os músculos, menor é a circulação sanguínea e, portanto, mais frias as extremidades. É muito provável que a percepção desta associação esteja na origem da expressão popular.

Enfim, a contração muscular, realizada para impedir uma expressão emocional ou para impedir uma ação julgada inconveniente ou de conseqüências excessivamente dolorosas, constitui, no seu início, uma forma apropriada de proteção; posteriormente, torna-se crônica, inadequada e pode gerar um sofrimento muitíssimo maior que aquele evitado no começo.

III. O terceiro componente da tríade é a eliminação, do foco da consciência, dos ativadores emocionais, isto é, a evitação das idéias, estímulos sensoriais, memórias verbais ou imagéticas que desencadeiam as emoções. Tal eliminação pode ocorrer na forma mais branda e usual de se desviar a atenção para outra atividade, através de diversos mecanismos cognitivos como descontextualização e distorção perceptual, ou através dos mecanismos mais radicais de repressão. O fator decisivo é que o ativador (o padrão original, ou qualquer outro associado a ele por aprendizagem) é mantido fora da consciência para que a emoção indesejada não seja desencadeada.